Agradeçamos aos Mercadores que Especulam com Preços

Um galão de leite: USD $7.59.

Inaceitável! Isso era o dobro do que eu gastei na cidade no dia anterior. Um galão de leite estragado e eu teria de iniciar o processo de falência. Seja quem fosse o responsável, se tratava de um especulador. Mas eu não tinha escolha; as batatas já estavam cozinhando. Eu agarrei o frasco, andei até o caixa silenciosamente expressando meu desagrado através do meu semblante e tossi o dinheiro.

Vejas tu, meu irmão estava cozinhando uma refeição para a família: presunto, vegetais e purê de batatas. Ele já havia iniciado. As batatas foram descascadas, cortadas e cozinhadas no fogão. Minha missão era obter o leite – não se pode fazer purê de batatas corretamente sem o leite.

Nós estávamos no meio da zona rural de Virgínia e o mercado mais próximo estava a meia hora de distância. Eu havia garantido o leite no dia anterior, mas eu acidentalmente o deixei no carro, exposto ao sol. Por sorte, havia um posto de combustível que estocava itens básicos de consumo a alguns kilo-metros ao fim da rua.

Quando eu lá cheguei, caminhei pelos fundos da loja e vi o último galão de leite que sobrará. Ele tinha um adesivo brilhante de cor laranja colado a si, este notificava aos clientes o novo e astronômico preço. Após comprá-lo, eu não tive tempo de chegar ao meu carro antes da lição econômica me ocorrer: foi extremamente oportuno para mim que o leite estava custando um valor tão alto.

Em retrospecto, torna-se óbvio. Por que razão a loja não estava completamente sem leite? Por todos os clientes anteriores não terem comprado o último galão. Eles estavam mais revoltados com o preço do que eu estava. E por isso eu agradeço, pois de outro modo eu teria falhado em minha missão. Eu não teria tido tempo de me deslocar por meia hora de e para a cidade. O jantar já teria acabado, sem o purê. Ao invés disto, graças à elevação do preço efetuada pelo gerente da loja, eu retornei triunfante, tendo tempo suficiente para aproveitar o jantar. O produto final ficou cremoso e delicioso.

A Visão Econômica.

Nós vivemos em um mundo de recursos escassos. Não há leite suficiente para satisfazer toda a demanda humana. Em um mundo perfeito, talvez leite fosse gratuito e abundante. Com um estalar dos dedos seria possível obter uma quantidade ilimitada. Mas este não é o mundo em que vivemos. Na loja, havia um único galão de leite sobrando e certamente mais que uma pessoa que o queria usar.

Quem deveria usar o último galão?

A resposta ensina-nos uma segunda lição, econômica, sobre alocação eficiente de recursos. Em mundo de escassez, recursos seriam idealmente alocados para aqueles que mais precisam dele. Se eu estou desesperado por água, seria uma lástima se alguém tivesse comprado cada garrafa de água da loja para aguar seu jardim. Nós precisamos de algum tipo de sistema para coordenar e conservar recursos escassos. Esta é precisamente a função do livre mercado.

O preço representa aquilo de que um comprador tem de abrir mão para poder adquirir um bem. Quanto maior o preço, mais tem-se de entregar. Quanto menor, de menos é preciso se desfazer. Então, quando há pouca oferta de algum produto – quando apenas um galão de leite está disponível na loja – o preço sobe e ele é alocado àquele que está disposto a pagar mais por ele. No meu caso, provavelmente eu era a pessoa, dentre todas da área, que atribuía o maior valor ao galão de leite; e eu paguei de acordo.

O que revela uma terceira lição: o gerente não tinha ideia. Nós nunca nos vimos. Eu não precisei explicar o porquê de eu precisar mais do leite que os meus vizinhos. Ninguém precisou entender economia. O homem estava simplesmente agindo na defesa de seus interesses, sem qualquer plano central ou direcionamento, e ele, sem saber, terminou por coordenar a alocação do recurso de modo a que ele fosse empregado na satisfação do objetivo de maior valor. Ao aumentar os preços – o que muitas vezes é visto como uma fria tentativa de maximizar os lucros – ele essencialmente disse à comunidade: “Ei, nós estamos com pouco leite! Apenas aqueles que realmente precisam dele podem comprar!” Concretamente, essa pequena ação foi diretamente responsável por dar a minha família um ótimo e tranquilo jantar.

Mas isto não acaba aí. Pense no longo prazo. Ao aumentar os preços, o dono da loja teve um lucro maior. Ele foi recompensado pela sua decisão sensível. Quem, em um mundo ideal, nós queremos que coordene a alocação de recursos escassos? Pessoas como ele. E, em um mercado livre, isso é precisamente o que ocorre. Quanto melhor o homem de negócios, maior é o lucro que ele obtêm e maior é a quantidade de recursos que ele pode alocar.

O inverso também é válido. O homem de negócios que não maximiza os lucros – que nunca aumenta seus preços e sempre tem prateleiras vazias – será competitivamente ultrapassado no longo prazo. Se ele continua a fazer um péssimo trabalho, se continua a ter perdas, então a bancarrota é inevitável. Isto, também, é desejável em um mundo de escassez. Se pessoas desperdiçam recursos, então, quanto antes elas falirem, melhor.

Digamos que o dono do pequeno varejo tenha lucros escandalosos. Ele mantêm o preço do leite em USD $7.59 indefinidamente. Em um mercado livre, isto não é algo que mereça preocupação. Lucros grandes são sinais para outros empreendedores entrarem no mercado: se eles puderem oferecer o mesmo produto a um preço menor, eles podem capturar os clientes do especulador e com isso obter lucros para si. Logo mais, essa competição propiciará o aumento da oferta e a diminuição dos preços, criando ainda mais valor à sociedade.

E agora, nós chegamos à última e desconcertante lição: essa coordenação acontece o tempo todo, todos os dias, para dezenas de milhões de preços. Oferta e demanda de vários produtos estão em fluxo constante. Quando o preço do ferro aumenta, por exemplo, ele gera uma onda de efeitos por toda a economia. Todos mudam seu comportamento de acordo, do vendedor de carros ao peão industrial. Em virtualmente todos os casos, ninguém sabe a razão – o mecanismo do mercado está por trás da cortina, sem que se precise ajustá-lo ou que se perceba seu funcionamento.

Precisamente por isso ele funciona tão bem. Quantidades enormes de informação sobre a escassez relativa de bens são transmitidas através do mecanismo de preço, mas cada agente individual conhece apenas um pequena fração de como isso ocorre. Por simplesmente agir para maximizar o próprio bem-estar – ao tentar aumentar os lucros – a alocação eficiente de recursos emerge do caos; ela não é deliberadamente planejada.

Então, da próxima vez que veres um preço alto, no lugar de se chatear como eu fiz, veja a situação de cima: o empreendedor está reservando um recurso escasso para a pessoa que o valoriza mais. De fato, é um dever de um negócio responsável aumentar os preços quando necessário.

O mercado livre, corretamente entendido, assemelha-se notavelmente a um sistema ideal. Ele não é perfeito, mas consideradas as limitações do mundo real, ele é a melhor opção que temos. Ele pode tornar os mais glutões dos mercadores em criadores de valor para toda a sociedade – mesmo sem que eles saibam ou aprovem.

Eu posso dizer sem hesitação, depois de pagar caro por um galão de leite: a existência desses sujos, podres especuladores me enche de alegria.


Licenças e Créditos

Texto originalmente escrito em inglês por Steve Patterson [1], licenciado sob os termos de “Creative Commons Attribution 4.0 International”. Traduzido por Anderson Nascimento Nunes.

Imagem destacada publicada por pixagraphic e licenciada aos moldes da Creative Commons Attribution-NoDerivs 2.0 Generic (CC BY-ND 2.0).

Referências
[1] “Thank Goodness for Price Gougers | Steve Patterson.” 2016. Accessed January 16. http://fee.org/freeman/thank-goodness-for-price-gougers/.

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